sábado, 31 de maio de 2014

eu preciso escrever muito para metabolizar os acontecimentos
por isso escrevo, por instinto de autopreservação
eu não sei o que eu quero quando abro um espaço em branco e começo a preeencher em letras em vozes em tamanhos sem cabimento de mim mesmo a leitura sem fim
o abismo
a página em branco, toda tinta é uma procuração à página e a você
eu pensei em escrever muito mais sobre isso que aconteceu
mas em vez, prefiro ir desvendando como cortinas que corto uma a uma ansiosamente
a você, espaço em branco que preencho minhas letras
cuspo uma a uma minhas aflições
lembro as suas, às suas lembranças
o nosso encontro
eu preciso escrever tanto e me mostrar, como sem cabimento pode um trecho dentro do idioma
a você, que não me preencho nessa lista
desabo noites a risca, nos riscos, nos toques é que toda poesia é feita
eu podia acreditar, mas por isso escrevo à risca

eu posso em você descontar a lida de dias e noites mal dormidos
toda essa angústia de quem não aprendeu a viver
acontecimentos, qualquer coisa que se diga
mas a tinta, toda tinta é caminho ao abismo da próxima página:






eu preciso dizer muito para compreender
por isso devaneio, por isso instinto em que preservo meu rito
eu sei o que vou querer quando estiver no meio de mim
no meio do poema
toda linguagem é passagem
cuspo uma a uma meus pesadelos
a você, ruído por trás de tudo
puro no seu ouvir passivo
eu preciso morder, por isso corro muito para atravessar
a página em vão, outras virão

mas a você, em você confidencio minha mentira
a que vivo, a que escrevo e a que fica no meio
cuspo a você uma a uma as páginas em branco que teci meras linhas
é muito mais atenciosamente que vou desvencilhando a hera que se prendeu no caminho
afinal, o nosso encontro, é tudo passagem
seus olhos que se prendem milésimos de segundo em cada palavra
reconhecem o idioma, e preciso escrever tanto, viver é prolixo desmedido de repetição
a você, atenciosamente desviro, desvirão outras tintas, outros pesadelos

é preciso estar em você, a você teço essa ladainha revirante
mas a caminho, qualquer coisa é descoberta, se passa
se desce a rama formada pelo que foi deixado
viver
mas se é a caminho, movimento, o traço-registro faz do poema algo não pior que o abandono








[dedicado depois de escrito e lido pra matheus matheus]

2 comentários:

  1. a poesia é uma lasanha estragada, que a gente ataca de colherada ...depois é que a gente estranha...

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lave

metâmero




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