sábado, 18 de janeiro de 2014

Por que você faz poesia?

Muitas questões sobre como essa liberdade de interpretação que a poesia traz são mais facilmente mencionadas, quem gosta. Mesmo quem acompanha como uma espécie de diário freak ao vivo, assim na carne crua, sei lá, será? Todo mundo se expõe de certa forma o tempo todo. A questão é simplesmente como você quer fazer isso, se quer e o que. Afinal nos comunicamos e é urgente a nossa movimentação e posicionamento no mundo em que vivemos, que é profunda e dementemente violento e opressor. Mas é muitas outras coisas também. É preciso respirar, é preciso agitar as ideias dentro da cabeça como um caleidoscópio, cê vê coisas bonitas mas são apenas padrões geométricos coloridos. Mas cê enxerga. Não tenho medo de narrar os fatos cotidianos, e os outros nem tanto, isso é o circo da vida mesmo: tanta coisa, pulsação, as pessoas gritam, mordem, riem, cantam, gemem, de frio, de medo. Tolice quem acha que onde ponho minha poesia deixo coisas pessoais como narrativas confusas, convulsas, longas. Deixo mesmo são pessoas, todos meus pedaços, e de quem mais encontrar pelo caminho, deixo pessoas, às vezes é consideração às vezes nem tanto, deixo rastros, cheiros, trajetos, me ponho por inteiro ali e muito mais. Mas você não vai saber o que fazer no final. Eu faço minhas perguntas e as responto. Minha poesia é atriz vulgar sem sombra sem rumo sem lastro muito menos âncora. Escrever é um fascinante e profundo exercício intelectual. É um exercício de observação da linguagem obsessivo, difícil, exigente, tiros no escuro que a gente fica dando a esmo. Tem muitos sentidos mesmo, ou nenhum. Tem sentidos demais na prática da escrita. Recorro ao próprio texto, sua estrutura, é ritmo, é textura, às vezes é só isso mesmo-textura, é recorrente, mas não é, é mais, escrevo poesia porque danza. É meta, é mera coisa, mas é um pedaço metâmero. Eu ponho aqui tudo que sou, ponho o que sei, ponho a engenharia que escolhi de ofício, ponho os meus amores, meus mares e meus buracos, porque isso é substrato. Mas não é narrativa vulgar nem um nada, é um quebra-cabeças sem fim, cê num vai me achar aqui. É metalinguagem a níveis enormes de recorrência. Por exemplo, rediscutir o papel da língua como ferramenta violenta de dominação: cê interfere numa regra das normas da língua aqui e ali, ora acidentalmente e deixado, ora por desconhecimento, mas quase sempre pensado, aquilo faz parte, mas é pessoal também, é orgânico, é meu sotaque e meu lugar no mundo minha linguagem. Poesia não é coisa mansa. Escrever é provocação. Escrever é tesão: precisa atenção. Senão perde o fio. Minha poesia é atriz e personagem no circo da minha vida e de todas que se entrelaçarem nessa ciranda descompassada, que suspeito cheio de evidências que leva ao mundo inteiro. Ela é quem amamos, quem amar, ela nós amamos e eu fico só. Escrever não é dual, é fractal.

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